Carlos Gustavo Yoda

jornalista = comunicador de redes

Democracia, comunicação e cultura

O meio corporativo, tão preocupado há tempos com o “desenvolvimento cultural”, aliado às políticas de renúncia fiscal e gigantescas estratégias publicitárias de mercado, caminha para a apropriação dos debates da “democracia cultural”, e com ele já começa a carregar a “democratização dacia comunicação”. As grandes empresas, ancoradas na propriedade privada dos valores imensuráveis do conhecimento, parecem não mais poder deixar de falar da necessidade em se inter-relacionar as políticas do campo da cultura com as da comunicação.

Prova disso é o artigo publicado em destaque no Boletim da Democratização Cultural, edição número 22, editado pela Instituto Votorantim.

“A dificuldade do acesso à cultura é um fato, no Brasil, intimamente ligado às questões de desigualdade social existentes desde as origens. Historicamente, grande parte da população vive à margem das oportunidades de desenvolvimento individual – o que denota enfraquecimento também para o desenvolvimento coletivo -, tendo, muitas vezes, como principal fonte de entretenimento e cultura os programas veiculados pelos meios de comunicação. Não obstante, muitas vezes o produto cultural que lhes é destinado não reflete em nada a sua realidade, ou, ainda pior, retrata-a de forma caricata, revelando apenas suas mazelas. Essa influência direta da mídia sob a percepção do indivíduo a respeito de si mesmo limita a diversidade e as possibilidades de transformação e demonstra claramente a necessidade de articular o processo de democratização cultural junto ao de democratização dos meios de comunicação.” (leia na íntegra)


O texto, sem assinatura, apenas publicado como “notícia” me pareceu até bom, mas remete a uma reflexão séria sobre os movimentos. Para quem milita na área, entendo ser preciso usar esse diálogo que se abre, com os cuidados de sabermos mais com quem andamos.

A pergunta é: afinal, de que democracia estamos falando? É a democratização do Jeca Total?

Acabo de voltar do Fórum Internacional: Mídia, Poder e Democracia, realizado em Salvador entre os dias 12 e 14 de novembro. A proposta de ação esteve centrado nas reflexões acerca da construção de observatórios de mídia e pouco falou-se acerca da busca da radicalização do processo democrático.

Há uma preocupação muito grande, uma espécie de protecionismo, quando o assunto é participação no lugar de representação do fazer jornalístico. o Fórum avançou no reconhecimento, principalmente dos que militam no Partido dos Trabalhadores e estão governo federal, da necessidade em se pensar e construir propostas de contra-poder aos grandes meios de comunicação. Mas em pouco serviu para a reflexão das novas propostas de comunicação em curso que dispensam a atenção dos mercados e da mercantilização dos saberes.

A apropriação dos debates acontece todo o tempo. Ignorá-los é o erro. O reconhecimento dos atores do campo de disputa ideológica é fundamental, dentro de uma lógica de pensamento complexo que compreenda as pessoas e o que elas representam. E o que representa a Votorantim se ocupar em falar em democratização da comunicação, precisa ser refletido por aqueles que lutam por essas bandeiras.

Empresas em transformação, mercado de ações, transformações sociais. O que ninguém vê, o que ninguém mede. O que vive. Viva! O eu com outro. O eu militante. O eu ongueiro. O eu burguês. O eu excluído. O eu quero incluir quem? E o eu vou incluir quem? Afinal, de que democracia se fala e se faz?

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